Ivo Tadeu Araújo Bianchini – Presidente de 1976 a 1979

Entrevistando a Ivo Tadeu de Araújo Bianchinni, tradicional pecuarista de Lages. Proprietário e criador de gado Devon, Limousin e também outras raças. Foi presidente do Sindicato Rural, foi presidente da Federação de Agricultura do Estado de Santa Catarina.

P: Do ponto de vista econômico, a diferença de estradas, de entrar lá dentro e fazer negócios, você estando ali com o gado puro, melhorou ou ficou na mesma?

R: A evolução foi muito grande, usei de tudo em função disso, do curso de veterinária, do estudo, do aprendizado, do sabor, de nossos conhecimentos. Nós conseguimos evoluir muito com as tecnologias que se usa na fazenda. Sem isso era impossível porque eu vivo única e exclusivamente da fazenda, principalmente nesse setor de transferência de embrião. Temos trabalhando com toda tecnologia. Sem querer me enaltecer, veio recentemente um pessoal de criadores de Devon dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Inglaterra, Austrália visitar nossa fazenda. Conversamos sobre essa tecnologia de transferência de embriões e nem eles têm os índices que nós temos aqui. Porque temos trabalhado com muito afinco. Lá eles são mais proprietários de final de semana.

P: Gostaria que falasse mais nisso. Você é um dos produtores, tecnologicamente falando, mais avançados aqui de Lages. A gente acompanha seu trabalho. Você também foi Presidente do Sindicato Rural de Lages. Fale sobre essa sua experiência, primeiramente como Presidente do Sindicato Rural de Lages e depois da Federação.

R: Eu estava na metade do curso de veterinária e já era bastante tarefoso fazer o curso, com as aulas de manhã, à tarde e à noite, e atender a fazenda. Veio numa hora super-atarefada o convite para dirigir o Sindicato Rural.

Devo confessar que não tinha as mínimas condições! Mas nunca fugi de desafios e acabei, pela imposição de amigos, aceitando. Isso foi em 1976. Apareceu um terreno e nós acabamos comprando. É o terreno, em que hoje está o Fórum Judiciário. Toda aquela área ali nós compramos para fazer a sede do Sindicato. A única coisa que me arrependo na vida, hoje, é de não ter comprado aquela área pra mim! Comprei para o Sindicato e paguei na minha gestão. Não deixei dívida nenhuma. Mas acabaram deixando a Prefeitura desapropriar aquele terreno. Foi coisa que eu senti muito, pois a finalidade não foi cumprida. Depois disso, já havia concluído o curso de veterinária. Veio também uma brecha. Estávamos sintonizados ao movimento sindical da Federação, que precisava ser renovada. Nos convidaram e fizeram uma chapa de oposição, uma disputa acirradíssima no Estado todo. Acabamos levando a melhor e graças a Deus isso foi um aprendizado muito grande para mim, o qual eu guardo com muito carinho. Tanto a parte do Sindicato, como também da federação. Nos abriu muitos horizontes para negócios, para a própria visão de vida e o usufruto da tecnologia que estava começando a despontar na área. Foi um momento muito importante na minha vida.

P: Voltando à presidência do Sindicato Rural, quantos mandatos você exerceu?

R: Um só.

P: Gostaria que você falasse na experiência no Sindicato Rural, no relacionamento com os colegas fazendeiros e também com as autoridades e se as autoridades davam, na época, importância para a pecuária aqui em Lages, para agrobusiness, como hoje. Menos ou mais? Enfim, a experiência de uma pessoa que exerceu um mandato em contato direto com as autoridades.

R: para a nossa surpresa tivemos várias vezes aqui até o vice-presidente da República (tinha até uma plaquinha lá no sindicato da época que ele veio nos visitar). Era o Dr. Aureliano Chaves. Ele deixou essa plaquinha pregada na época. Tivemos a presença do presidente nacional do Banco do Brasil (que hoje nem se sabe quem é). Ele esteve aqui numa exposição conosco. Várias autoridades nos prestigiaram bastante, porque é importante o Sindicato Rural de Lages (hoje ainda é assim. Na época havia mais pressão).

Naquela época, o Banco do Brasil não tinha sede regional em Florianópolis. Era em Curitiba e muitas vezes fomos lá e conseguimos verba e financiamento. Na época, o Presidente do Banco do Brasil era o Perachi Barcellos. Devo dizer, como presidente da Federação que nós fomos praticamente a todas as Festas Nacionais da Maçã. Na última vez veio o presidente Geisel, com sete  ministros à Festa Nacional da Maçã em São Joaquim! Nós sentamos à mesa e conversamos livremente como pessoas civilizadas, sem problema algum.

Depois do governo militar, quando assumiu o Presidente Sarney, havia mais seguranças do que gente lá...

P: Ainda a Federação da Agricultura. Como foi a sua passagem por lá, atendendo a fazenda aqui? Passava a semana lá e vinha no fim de semana? O que a Federação representava na época? Vamos comparar com hoje. Você analisando hoje, a Federação evoluiu?

R: Não gostaria de tecer nenhum comentário depois que eu saí de lá porque a gente sempre tem aquela coisa de que “se foss eu teria feito assim”. Mas, infelizmente não é. Quero dizer que naquela época (e você parece que numa oportunidade nos deu a satisfação de viajar junto para Brasília), num daqueles movimentos que existiam dos agricultores, em que nós éramos sempre recebidos pelos Presidentes da República. Nós da Federação fretamos um avião, um vôo fechado, levamos os sindicalistas lá para Brasília! Isso tudo engrandeceu não a mim, mas à Federação. E a vivência qe a gente teve, contatos que a gente teve na Câmara, no Senado.

P: Você fretou um Boeing?

R: Exatamente, foi pago pela Federação para irmos lá. Hoje não temos aqueles recursos disponíveis que tínhamos na época. Foi feito tudo. Sabe lá a  que custo, mas foi muito importante. Essas coisas ficam marcadas.

Posso dizer aquilo que eu penso. Eu acho que a única coisa permanente no mundo são as mudanças. Hoje eu vejo Presidentes da Federação de outros Estados, como São Paulo e Pernambuco, que ainda são os presidentes do meu tempo. E já fazem mais que 15 anos que deixei a Federação! Acho que precisa ter mais renovação! A coisa que está valendo no mundo são as mudanças!

P: Fale sobre sua experiência internacional na área da pecuária. Você foi muitas vezes ao Uruguai em função das raças que cria, como Devon principalmente, e a Limousin. Gostaria que fizesse uma comparação da pecuária antiga com a atual. E que também falasse sobre as perspectivas que você vê para Lages, para os campos de Lages, nesse sentido agrobusiness.

R: Sou muito autêntico em falar sobre o que penso. Os bancos, por exemplo, trabalhavam com um número “X” de funcionários. Hoje só se vê máquinas e não se vê funcionários. E se estivessem com todos aqueles funcionários que tinham, os bancos não estavam tendo o lucro que têm. Na pecuária há muitos fazendeiros e proprietários que  ainda estão trabalhando nos moldes de vinte anos atrás. E não tem lucratividade trabalhando naqueles moldes! Não que eu queira revolucionar a pecuária, mas acho que temos que acompanhas as evoluções.

Com a Coxilha Rica, nós temos que tecnificar o que dá para tecnificar. Se dá pra produzir alimento, temos que produzir alimento. Hoje têm valor soja, milho, feijão e outas coisas. Se o boi tá ruim, ele vai comer pasto naqueles lugares onde não dá de fazer agricultura.

Há um detalhe que quero colocar bem. Não é fácil explicar porque muitas vezes a gente dá umas palestras e o pessoal pede para falar sobre a pecuária extensiva, sobre campos nativos, etc. Vou dar um parâmetro. Em campo nativo engorda 0.3, 0.4 boi por hectare. Numa pastagem cultivada, engorda 2.5 bois por hectare. Isso em percentual dá quase 800% de diferença entre uma área cultivada e outra! Agora, numa atividade na qual você tem entre uma ponta e outra 800%, alguma coisa está errada, não vai dar certo.

Outra coisa que eu sinto muito: você trabalha com dois, três tratores, você vem a Lages e não encontra. Mas as pessoas dizem “Se você precisa, amanhã você tem”! Veja que ninguém faz estoque e nós fazemos estoque de campo nativo, colocando um boi lá até quatro anos, estocando esse boi. Isso é prejuízo na certa! Temos que trabalhar em escala ou não vamos conseguir. Vendendo um caminhão ou dois de bois por ano, não se vai poder cumprir os compromissos de todo dia. Ainda mais hoje, na era moderna de tecnologia, de telefone, de internet, de TV a cabo e várias outras coisas. Pode-se até reduzir as despesas na fazenda, mas na cidade elas dobraram, triplicaram, quadriplicaram.

P: Interessante essa resposta do Ivo Tadeu porque ele tem prática. Inclusive tem na fazenda uma grande parte plantada em pastagens de inverno.

R: Eu sempre costumo dizer o seguinte: terra é sempre terra. É um bem que não vai fazer. Você levanta um prédio, mas terra não tem segundo andar, terra só tem um andar! Você tem que usufruir o máximo que puder dessa estrutura. Naquelas páreas que pode melhorar você melhora. Nos moldes tradicionais da pecuária, se quer dobrar a lotação de gado, teria que comprar outro tanto de terra. Isso é praticamente impossível. Hoje não se tem como fazer isso. Tem que usar a tecnologia. Hoje, um sal proteinado que você dê para o gado de cria, que, faça um melhor aproveitamento do terreno, aumenta a lotação, no mínimo em 40, 50%! Isso é ima tecnologia barata, o primeiro passo. Outro passo é o seguinte: fazer da área 15% de pastagens.