Ulisses Branco de Andrade – Presidente de 1970 a 1973

Sr. Ulisses Andrade, tradicional fazendeiro de Lages, muito conhecido. É uma verdadeira lenda e vai dar sei depoimento.

P: Tio Ulisses, comece a falar da vida, da “estrada da vida”. Onde o Sr. Nasceu?

R: Eu nasci na Fazenda Primavera, que era propriedade de meu pai. Gaudêncio Pereira Andrade. Ficava naquela região de Capão Alto, no Morro das Cruzes, próximo à estrada de ferro, hoje uma estação. Nasci lá, éramos 5 filhos, tivemos os primeiros estudos em casa, coma professora particular. Depois, a gente foi crescendo e viemos pra cidade. Estive inicialmente no Grupo Escolar, depois fui para o Ginásio Diocesano, em seguida o pai me mandou para Porto Alegre. Fui para um ginásio maravilhoso lá, o “IPA”, um ginásio muito famoso, muito esportivo também. Fiz o segundo, terceiro e quarto ano ginasial e me formei lá. Depois, fiz o curso preparatório para Engenharia. Fiz o curso todo de um ano, mas não consegui o ideal, que era passar.

P: Conte para nós, além dessa atuação na área da cultura tradicionalista, como era a lida na fazenda, logo que o senhor começou. Comparando hoje a lida do gado, o trabalho nas mangueiras, as tropeadas, como vocês faziam o comércio do gado, porque o senhor tem uma grande experiência nisso.

R: A gente trabalhava o gado com felicidade. Caprichava para deixar o gado manso. Tinha mais criação, mais gado de cria. Esse foi o meu fraco, sempre gosteu de ter gado de cria em vez de bois. A gente ia a Bom Jesus fazer compras lá. O Zé Ramos também comprava lá, quinhentos, oitocentos, mil bois para seu Nenê, o pai dele. Fazíamos aquela passage por Santa Vitória, no Rio Pelotas, o gado passava a nado, os animais também passavam a nado, e nós, que estávamos tropeando, passávamos de canoa. Do lado de cá, cada um pegava seus lotes. Apartávamos e cada um seguia seu destino. Era uma lida muito bonita, trabalhosa quando o rio estava cheio. Às vezes ficávamos trancados lá porque não havia ondições de passar devido à correnteza. Nós íamos à Vacaria nos rodeios. Fui julgador em 4 rodeios seguidos, para minha satisfação. Até, sempre fui Presidente de Comissão, então a gente disputava com muita distinção as provas.

P: Nesse meio tempo, além dessa sua descrição o senhor foi presidente do Sindicato Rural de Lages. Como foi sua experiência lá?

R: Eu pertenci a duas Diretorias, depois no ano de 1969 houve uma eleição, cuja chapa era encabeçada pelo Dr. Wilson Vidal e eu era o primeiro-vice da chapa. Mas aconteceu que na hora de se aproximar da posse, (porque não houve outra chapa para competir) veio uma ordem superior impedindo a posse do Dr. Wilson e mandando que eu liderasse a chapa. Fiquei como primeiro presidente. Foi uma Diretoria muito boa, o Dr. Bianchini meu vice, Saulo Ramos, Dr. Luiz Moojen Ramos. Hoje ele é funcionário da secretaria em Mato Grosso do Norte. Administrei o Sindicato com muito empenho, logo que recebi as rédeas. Na época não era Sindicato, era Associação Rural e centralizava todas as outras associações dos arredores, de Alfredo Wagner, Campos Novos, São Joaquim, Anita Garibaldi, Campo Belo. Então, nessa ocasião havia também uma mudança na direção do ministério da Agricultura do Estado de Santa Catarina e nós pensamos e achamos por bem tentar colocar um elemento aqui de Lages e o Dr. Ivo Tadeu Bianchini se propôs a aceitar. Fizeram um trabalho muito grande entre essas Associações que apoiaram o nome dele. O Tadeu administrou em dois períodos por seis anos, sendo cada período de três anos.

P: O senhor ficou famoso no sindicato, por ser um homem enérgico com as autoridades. Não engolia “Sapo” das autoridades, falava o que tinha que falar e se fosse preciso metia o pé na porta. Isso é verdade?

R: Quando fizemos uma exposição, trouxemos o Presidente da república aqui. Quem trouxe o presidente fui eu. Era o presidente Figueiredo. Veio também o Governador do Rio Grande do Sul, Walter Barcellos, veio Colombo Salles. No momento da inauguração, eu estava ressentido com o setor fazendário do Estado, que não nos deu financiamentos. Disse que “lamentavelmente” o Governo de Santa Catarina não se fazia presente no setor de financiamentos. O Governador quando falou disse que fui um pouco áspero. Aí eu falei com ele: “Eu não fio áspero, eu falei a verdade”. E ele ficou me conhecendo. Quando eu passava lá em Florianópolis, casualmente ele me enxergava e vinha falar comigo, fizemos amizade.

Nós trouxemos pra cá de início (importamos para associados) quarenta novilhas Fleckvieh. O Dr. Glauco Olinger, que era um baita Secretário, um homem que vivia aqui conosco, foi lá na Alemanha e na Austrália e selecionou aquele gado e trouxe para Lages. E distribuímos para os interessados, raça que ainda tem bastantes interessados. Além do setor leiteiro, prestigiei muito os veterinários, os técnicos. Havia cursos de inseminação. Comprei um jipe e coloquei à disposição da equipe para que eles fizessem inseminação artificial.

Em um determinado período, à disposição minha e do Aldo Ribeiro, presidente da Associação Rural em Bom Retiro, e do Presidente do Sindicato Rural de Curitibanos, conseguimos com o Governador do estado um prêmio, nos levando junto com ele a Londrina. Fomos em um avião do Bamerindus. Ficamos treze dias lá como prêmio pelo trabalho que estávamos fazendo aqui. Isso nos alegrou e entusiasmou cada vez mais. Colocamos também médicos à disposição dos associados. E dentistas.